Posts filed under 'Contos'

Conto: O caso do roubo de um livro

Saía de uma clínica. Era o dia de um exame feito somente com o intuito de tirar qualquer suspeita de que o coração estava com algum problema. Apesar de aliviado pelo resultado ser tranqüilizador, ele foi pensativo até a parada de ônibus.

Passaram-se alguns minutos. Como o ônibus demoraria, ele resolveu observar os livros terrivelmente organizados numa prateleira colocada na parada. Era uma iniciativa de um empresário sonhador da cidade, colocar prateleiras com livros para emprestar para as pessoas desde que devolvam.

Ele conhecia muito bem o projeto e de tanto observar as prateleiras, sabia também da existência de livros pouco interessantes nelas. Mesmo assim olhou.

Como num milagre uma magnífica edição de 1984 reluzia entre os outros livros sem vida. Quase não acreditou. Era a última edição, comemorativa a propósito.

Sem pensar se estavam olhando e por saber de suas reais intenções, ele simplesmente pegou o livro e escondeu na mochila.

É claro que não o devolveria jamais nem se importava se alguém sentiria falta dele. Era 1984!

Nem se a cidade fosse vigiada por teletelas, nem se alguém o ameaçasse a devolver, mesmo se ele fosse preso, não o faria desistir. Apesar da vergonha inicial, ele sentiu na pele aquela história de que a única coisa vale a pena roubar são livros. Na realidade ele estava salvando aquela pobre edição abandonada. Quem o impediria de fazer o bem?

Add comment Junho 6, 2008

Conto: Vermelho no jornalismo

Na tarde desta quarta-feira uma matéria de 4.559 caracteres (sem espaço) foi agredida friamente por um sujeito. Friamente, ele deixou marcas do crime por toda página com sua caneta vermelha e fugiu do local sem ser percebido.

O autor da matéria chocado com o crime não teve a oportunidade de punir o agressor. Ele declara que o fato ocorreu de forma muito rápida. “Tudo o que vi foi que terminei a matéria. Mandei imprimir. Me distraí salvando a matéria no servidor da redação. Quando pude, levantei e fui conferi se o meu editor havia lido. Quando vi em cima de sua mesa estava outra cópia da minha matéria toda manchada de vermelho. Foi horrível”.

A pessoa que iria editar o texto se safou da acusação. Ela também se surpreendeu com o texto todo riscado. “Se soubesse que estava já sendo corrigido nem perderia meu tempo!”. Ela afirma que na cópia que recebeu não havia identificado tantos erros quanto o mostrado na versão agredida.

Já consolado o autor desabafa. “Reconheço que não era um dos meus melhores textos. Mas adoraria saber que tipo de gente faz isto? E pior. Foge!”.

A polícia já tem um suspeito, mas prefere deixar detalhes em sigilo para não comprometer a investigação.

1 comment Maio 13, 2008


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